1999 | Gazeta do Paraná | … e da terra brotou o cinema

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Matéria: … e da terra brotou o cinema
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Escrita por: Rejane Martins Pires
Veículo: Gazeta do Paraná, caderno Cultura. p. 24
Data de publicação: 25-04-1999
Fotocópia disponível no Gazeta ALT

O ano é 199. O filme uma história romanceada sobre os primeiros anos de colonização da região Oeste. O sonho é fazer cinema. E nada melhor que fazer aqui, na própria terra e com a história de nossa gente. Produtores, diretores, atores e cenógrafos dividem a cena com uma história que para muitos está bem próxima, e para outros nunca aconteceu. Mas eles estão lá, acompanhando cada cena, cada gesto, cada diálogo. Parecem estar em um cinema de verdade e em suas faces nasce a esperança de que desta terra brota também uma nova consciência.

Estamos falando do filme “A Saga”, que está sendo produzido pela TV Tarobá, em parceria com a Tigre Produções Cinematográficas, com o apoio da Prefeitura de Cascavel, através da Secretaria de Cultura e Turismo. Uma produção que está despertando o interesse não só da comunidade local, mas de todo o Estado. Uma produção que vai mudar a história do cinema local.

Para o ator Raimundo de Souza, que atuou nas novas “Fera Ferida” e “Pacto de Sangue”, esta descentralização vem confirmar o renascimento no cinema nacional. “É de extrema importância a cultura e o cinema saírem do eixo Rio/São Paulo. Esta descentralização, além de valorizar a cultura regional e o trabalho dos atores daqui, abre novos horizontes para o cinema, que preso às grandes cidades, carrega sempre os mesmo clichês”, diz.

Para Raimundo, contracenar com os atores locais é uma forma de trocar experiências. “Não tive nenhuma dificuldade, porque os atores daqui foram ensaiados antecipadamente, e foram eles que nos deram a base para criarmos os nossos personagens. Cascavel tem grande potencial nesta área. A Regiane Coleraus e o Talício Sirino, por exemplo, são grandes atores”.

Para interpretar o Nhô Jeca, que é um dos colonizadores da região, Raimundo se baseou em relatos de pioneiros. “É um personagem riquíssimo e muito engraçado. Muitos o achavam grosso, mas na verdade era um grande brincalhão”, explica.

João Vitti, que atuou na novela “Despedida de Solteiro”, da Rede Globo, e “Éramos Seis”, do SBT, aceitou o convite para fazer o filme em Cascavel justamente por acreditar na proposta da regionalização do cinema. “Eu li o roteiro e achei a história interessante, principalmente por se tratar de um trabalho que busca a consolidação da abertura de espaço para se produzir filmes. Isso também é uma história de desbravadores e pioneiros, que querem abrir este mercado de trabalho aqui. Acredito que produções como esta vêm a serviço de revelar as culturas diversificados do Brasil, que é muito grande para ficar preso aos grandes centros”.

No filme, Vitti interpreta Andálio dos Anjos, que trazido à região por Nhô Jeca, quer ver a vila “Encruzilhada” se transformar em cidade. “É uma pessoa rude e até mesmo autoritária, no entanto muito íntegra e com grande senso de justiça”, frisa.

O ator ressalta que “A Saga” está sendo uma experiência fantástica em sua carreira. “Aqui não existe uma escola, uma técnica apurada. Existe sim a intuição e a criatividade”. Isso, segundo ele, é o elemento enriquecedor do trabalho. “No Brasil, não há dinheiro para o cinema. E esta falta de dinheiro torna as pessoas mais criativas, mais geniais. Central do Brasil, por exemplo, é uma produção simples e ao mesmo tempo complexa, pois traz uma grande verdade em sua história, mostrando o Brasil como ele é. O brilho nos olhos daquelas pessoas que deram seus depoimentos traz uma dose de verdade que não se encontra nem num Robert De Niro. Aquilo toca, estimula e ajuda a quebrar as couraças do mundo globalizado e capitalista, onde os homens só pensam em ganhar dinheiro. Por isso, eu bato palmas para este projeto que está sendo construído em Cascavel. São pessoas audaciosas que querem fazer história”, acrescenta.

OUSADIA – O ator Valdir Fernandes, que atuou em “Meu Pé de Laranja Lima”, “Os Imigrantes” e “Mandacaru”, destaca a ousadia dos cascavelenses. “Trata-se da primeira cidade do Brasil a fazer uma produção deste nível, aproveitando a mão-de-obra e os talentos locais. É importante que surjam estas iniciativas para mostrarmos através do cinema, histórias como esta da Saga, rica em personagens, cenários e elementos históricos”.

Cascavel, segundo Valdir, tem tudo para se transformar num pólo cinematográfico. “Aqui tem cenário, tem gente bonita, homens e mulheres de talento. Enfim, se enquadra nas novas propostas do cinema nacional, que é justamente apostar nesse resgate histórico”, diz. “O processo aqui está num estágio crescente. Já foi montada a cidade cenográfica e isso vai resultar em novos investimentos e no crescimento da atividade”, finaliza.

EVOLUÇÃO – “Trata-se de um acontecimento histórico”. Esta é a afirmação de Talicio Sirino, um dos produtores e também ator do filme “A Saga”, sobre esta etapa de filmagens realizadas na cidade cenográfica em Cascavel. “Além de estarmos conquistando espaço no cinema paranaense e nacional, este trabalho revelou muitos talentos. Tudo isso, porém, é resultado as nossas primeiras experiências. Fomos nos aprimorando, cometendo menos erros e buscando sempre a integração com a comunidade”, explica.

A doação de um terreno anunciada pelo prefeito Salazar Barreiros para a transferência da cidade cenográfica também é resultado deste trabalho. “Desta forma, a cidade cenográfica vai ter um espaço definitivo e funcionará como museu, contribuindo para a memória histórica do Município”. Com 80% do filme rodado, a proposta dos produtores é lançar “A Saga” em maio. O filme é dirigido por Manaaos Aristides e conta com 300 pessoas envolvidas na produção.

~ por andersondoalt em Maio 17, 2009.

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